o desconexo

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27.5.10

os erros de Sally

Sally Mann, fotografia da série 'Deep South' 1996-1998

Um erro é o que é. Um erro.
Presuma-se que a natureza primária do erro reside na sua imprevisibilidade. Um erro será portanto um evento não antecipável num determinado processo, um conjunto de micro-acontecimentos que se desenrolam para lá da compreensão, gerados ao longo do curso 'normal' do processo.
Coloque-se depois a questão: - o que acontece se o erro for aceite como elemento-parte do processo?
O autor erra. O autor assume o erro. O autor repete o erro. E depois deixa-o acontecer de novo e outra vez. Ele não o contorna, mas também não o procura. O autor parece esperar pacientemente a ocorrência desses micro-acontecimento, e melhor, trabalha o erro e aperfeiçoa-o. O erro, não sendo um fim em si, torna-se a tónica dominante da obra.
Assim se chega a uma encruzilhada. Poder-se-á assumir que o erro se torna mais do que um elemento-parte e que ele é o elemento-chave no processo para atingir um fim (in)esperado. Mas até quando se pode falar ainda da existência de um erro?

Sally Mann, fotografia da série 'Deep South' 1996-1998

Para Sally Mann, fotógrafa americana, o erro é o elemento-chave e por isso Mann chama-lhe 'erro técnico'.
Na série "Deep South" quase tudo reside na ideia de 'erro técnico', conjuntos de micro-acontecimentos premeditados mas não controlados, onde Mann explora processos de acumulação, e onde tudo ganha assento sobre os seus negativos de vidro.
Os erros de Mann são as poeiras, as dedadas, as falhas entre a incerta disposição dos compostos. Camada após camada, como um mil-folhas, os erros sobrepõe-se como se existisse sempre espaço para mais um engano.
No fim chega a luz à qual reagem quimicamente os compostos e à qual se pede o impossível. Através do desequilíbrio do meio não se fixa apenas uma realidade inexacta. Fixa-se o tempo com colódio.
As fotografias de Mann narram desta forma a passagem do tempo e tratam em simultâneo a imutabilidade da paisagem. São carregadas de contrastes onde convivem o detalhe e o indistinto entre a natureza-morta e um ambiente quase fantasmagórico.
Ao fim e ao cabo há qualquer coisa difícil de explicar nas paisagens da Virgínia. Talvez sejam demasiado espessas para se deixarem ver por olhares pouco treinados, ou demasiado densas para se deixarem descreverem.
Por último, entre o que Mann faz e o que diz, fica por resolver a ambiguidade do erro; o desacerto do instante quando o erro deixa de ser o que é.
Um método.

2 comentários:

joão amaro correia disse...

sem dramatismos, artefactos teóricos e alguma ingenuidade: o 'erro' é-nos tão íntimo quanto a corrupção da carne. tomemos isso em conta.
e avançar.

tiago borges disse...

Não me parece nada dramático, diria até estimulante...
No entanto erro é diferente de imperfeição e não sei se um 'erro com propósito' continua a ser um erro. (Aliás é isso que me confunde no trabalho de Mann.)
Quanto à teoria da 'corrupção da carne' tenho as minhas reservas.
Avancemos.