o desconexo

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17.6.10

fazer e tirar

Philipp Schaerer, Bildbauten Nº01A (2007) 4925x6874

Não consta que Philipp Schaerer seja fotógrafo de arquitectura, no entanto, é de arquitectura que trata no seu trabalho de autor em Bildbauten, mais precisamente, de imagens de arquitecturas. Sem recurso a uma máquina fotográfica, ele cria representações que constrói a partir de uma quase infinita biblioteca de texturas e cores. Na série Bildbauten, Schaerer traça os limites de uma fachada muito sua, para depois copiar-colar os pequenos quadrados segundo uma lógica própria, criando gradações tonais e evocando materialidades familiares com as quais preenche a tela digital... Aliás, poder-se-ia dizer sem desprimor, que na verdade Schaerer é um organizador de pixéis.
As construções de Bilbauten actualizam a noção de trompe-l'oeil contemporâneo através do poder da ilusão. O observador é fintado pelo hiper-realismo e, sem recuo suficiente, prova da frustração imposta pelo imutável ponto de vista, constante nas vinte-e-quatro pranchas da série. Em Bildbauten, Schaerer aborda uma ideia de arquitectura através de imaginários a duas dimensões cuja firmeza quase assoma a realidade na melhor tradição dos renders 3D.

Poder-se-ia aprofundar 'o-que-faz-Schaerer' à luz do capítulo "A realidade recriada" no Linguagens da Arte de Nelson Goodman, mas seria arriscado para ler na ligeireza do formato do des-conexo. Assim sendo permita-se apenas um desvio para apurar uma questão que (para já) dimana do trabalho de Schaerer.
Um dia, na sua Mellon Lecture no Canadian Center for Architecture, dedicada aos primórdios da fotografia de arquitectura, o historiador James Ackerman alertou para a particularidade semântica de se dizer "eu faço um desenho" comparativamente à fotografia onde verbo aplicado não é o mesmo por se dizer "eu tiro uma fotografia". (Eis que o leitor já terá adivinhado onde se quer chegar...)
À luz do "fazer" versus "tirar" de Ackerman na criação de arquitectura, o trabalho de Philipp Schaerer levanta o problema fundamental da sua própria indefinição porque Schaerer por um lado não tira fotografias, por outro, não faz desenhos.

Philipp Schaerer, Bildbauten
com textos Reto Geiser, Philip Ursprung, Martino Stierli e Natalie Herschdorder
80 páginas / editora Standpunkte, Basel

4 comentários:

Geraldo Brito (Dado) disse...

Saudações e parabéns pelo blog!

tiago borges disse...

Obrigado!
Volte sempre..

AM disse...

não percebo a diferença
uma fotografia é sempre feita ("construída")

tiago borges disse...

mas afinal Schaerer é fotógrafo?