o desconexo

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9.7.12

a montanha de balthus

Balthus - The Mountain (1936-37)

Há sensações difíceis de tirar a limpo e...
E de repente estava a receber uma taça de chá das mãos da Condessa Setsuko Klossowska de Rola, a mulher de Balthasar Klossowski. Foi como entrar num 'espaço' da história. Um quase-habitar o 'Grand Chalet' de Rossinière.
Revisito as sequências estreitas, impossíveis de fotografar. Os espaços que só se guardam na memória. Contados são difíceis de acreditar, e com a sorte das palavras certas quase se tornam mitos.
O corredor da entrada revestido a papel de parede amarelecido. A luz "à contre-jour" que invadia os quartos alinhados. As portas que davam sobre outras portas. A parede do corredor pontuada por fotografias cheias de amizade de Cartier-Bresson dedicadas a Balthus. E aquela sala, à direita, cheia das conversas dos nossos passos. De tanto ranger, o soalho parecia cantar e por isso ninguém o interrompeu.
Não havia nada de extraordinário que não fosse já esperado. Tudo era grande demais e muito para lá do tamanho daquela casa.
Dizia que há sensações difíceis de tirar a limpo... e que nos moem de tão exigentes que são.


10.9.11

observações em água doce

Três imagens para um post que não precisa de texto.


Heinz Isler, Pavilhão (s.d.), Burgdorf
Valerio Olgiati, Projecto no lago Cauma (1997)
Diller Scofidio & Renfo, Blur Building (2002), Neuchatel 


22.8.11

peregrinações de verão e o conselho do Agostinho


"É preciso estar sempre crítico diante daquilo que se vai admirar, o que é diferente do ser crítico daquilo que se ama. Diante do que se ama, não se deve ser crítico, deve-se deixar que o amor nos possua. Mas diante daquilo que se admira, muito cuidadinho - tem de se estar sempre com objecção pronta, a ver se podemos demolir aquilo que admiramos e que não serve afinal para nada." (A.da Silva)

Caro Agostinho, na dúvida, o melhor é ir naqueles momentos de lusco-fusco quando a claridade nos impede de bem admirar e a penumbra apenas nos deixa ver o suficiente.

19.8.11

Gossip

O Olgiati tem uma el croquis e o alentejo tem um olgiati.

14.5.11

lingon 1



Cité du Lignon (1963-1971) G.Addor, D.Julliard, J.Bolliger, L.Payot
I
Le jour ou la nuit
Sous le soleil ou sous la pluie
Le Lignon est toujours gris
II
"La question posée était: Voudriez-vous vivre au Lignon? Des exclamations horrifiées s'ensuivaient."
III
Há qualquer coisa de muitas coisas nesta barra quilométrica.

12.1.11

aalto em dias de chuva

Wohnhochaus Schonbuhl (1965-67) Alvar Aalto, Karl Fleig, Lucerna (CH)

4.1.11

o.t.n.i.

Finíssimos de betão (2010)
Encontros imediatos e registos de Objectos Terrestres Não-Identificados provam que não é evidente conjugar em simultâneo a condução em auto-estrada e a prática da fotografia de arquitectura.

8.8.10

balnear

Marc Piccard, Praia de Bellerive, Lausanne (1935)

7.8.10

graber pulver (actualizado)

Uma das instituições mais importantes numa estrutura social é, ou poderia ser, a escola de arquitectura. É um organismo de que se fala muito pouco e cuja relevância na dinâmica social em Portugal tem espaço para a progressão num momento em que falamos da força dos mercados culturais. De entre as suas qualidades há uma que pode fazer uma enorme diferença na qualidade do ensino que se pratica: é a possibilidade incluir aulas de projecto leccionadas por professores convidados. Como em muitas escolas, esta é uma prática comum na Suiça, e tomo como exemplo a ETH de Zurique e a ETH de Lausanne. Ao aluno é dado a escolher entre vários ateliers de projecto, normalmente com a duração de um semestre, concebidos por arquitectos convidados. Como produto da geração erasmus tenho sobre esta matéria um olhar claramente viciado por ter passado pela experiência.
Uma organização deste tipo apresenta dois dados importantes: um ensino claramente mais próximo da prática corrente e dos problemas contemporâneos, e a pluri-disciplinaridade da formação oferecida pelas diferentes temáticas em jogo, ou seja, entre os vários ateliers. Inerente à situação está o facto dos programas de estudo propostos pelos professores convidados estarem intrinsecamente ligados a uma visão própria, ou a um centro de interesses específico, situação que cria uma relativa intimidade do processo de formação.
Seja em relação ao corpo académico ou ao contexto regional, a situação estrangeira de grande parte das personalidades acentua a forte componente de contaminação cultural. Algumas das experiências de docência resultam em publicações de carácter não académico mas ainda assim pedagógico que fixam a especificidade dos processos acima descritos, e como é o caso do livro que se segue.

'Raumsequenzen und urbane infrastrukturen - Spatial sequences and urban infrastructures' é a publicação que relata a docência de Marco Graber (1962) e Thomas Pulver (1962) durante o periodo 2006-08 como professores convidados na disciplina de projecto do curso de arquitectura da ETH de Zurique. Graber Pulver é também o nome do escritório fundado em 1992 pelo dois arquitectos suiços, também formados na ETHZ entre 83-89.
Importa aqui reter ou destacar duas ou três ideias do ensaio introdutório, da autoria de Graber e Pulver, que deram a tónica aos exercícios propostos e que são simultaneamente preocupações presentes na sua prática enquanto arquitectos.
Como o título sugere, os exercícios focalizam-se na resolução de programas de âmbito infra-estrutural; equações que pela complexidade e pelo o seu papel são capazes de se inscrever na ordem primária de um tecido urbano, ou possuem uma força capaz de gerar uma nova urbanidade. No seu ensaio, Graber e Pulver sublinham a importância da criação de identidade num determinado contexto através o potencial espacial de um projecto; situação patente, por exemplo, no projecto da dupla para um conjunto habitacional em Shafereiareal (Zollikofen, BE, 1993).
A dupla fala também de "dramaturgia espacial" - uma expressão feliz - para ilustrar o que consideram ser mecanismos de re-definição da identidade de um lugar; situação trabalhada, por exemplo, no projecto a concurso para o centro Alterszentrum em Zug (2004). Este projecto afirma uma volumetria estrangeira ao contexto mas ainda assim guarda uma forte referência aos volumes existentes.
Nos exercícios académicos na ETHZ, como no trabalho de Graber e Pulver, o conceito de movimento/deslocação tem direito a uma forte mise-en-scène; na grande escala estas ideias acentuam a importância de novas sequências urbanas, na pequena escala originam muitas vezes o gesto em que se funda o projecto, como as escadas do bloco Rondo em Zurique (2004-07) ou a circulação na proposta de concurso para a reconstrução da pousada no Gottardpass (2005).
Os exercícios propostos durante os 4 semestres foram: Hypercrans - um interface de teleféricos com hotel, apartamentos, zona de comércio, desporto e spa no contexto alpino da região de Crans-Montana; Autopark - um complexo para carros, interface de autocarros, e outras funções adjacentes como bomba de gasolina e stand de vendas; Tanzbern - um edifício forum para a dança no cantão de Bern com centro de documentação, hotel, restaurantes e salas de espectáculo; e Bergbad - um complexo de centros de bem-estar e descanso no Val Sinestra, Alpes suiços. A publicação, que serve para relatar experiência de ensino e compreender melhor o trabalho da dupla Graber Pulver, tem ainda ensaios de Andreas Ruby, Axel Simon, Nadine Olonetzku e Judit Solt, e é editado pela Scheidegger & Spiess.



28.7.10

opus 1

Escrevo para fixar algumas notas inesperadas que me tomaram de assalto e para relatar as surpresas e os atritos, esses por demasiados não se deixaram desenhar, ou talvez, por em demasia, toldaram facilmente a objectiva barata da minha máquina sem rolo. (Verdade é que temos sempre por aí coisas 'não-pixelisaveis', por isso resta-nos a escrita...) Também escrevo porque não tive naqueles instantes uma cabeça atenta para contar as inquietudes que a casa me provocou; ou simplesmente porque o tempo que demorei a recuperar do abalo do 'first date', perdoem-me o anglicismo, condenaria ao fracasso a tentativa de dois dedos de conversa sobre o assunto.

O meu encontro com a Maison Blanche não foi fácil. Quase como um daqueles primeiros encontros em que se chega estupidamente nervoso e se parte estupidamente inquieto porque nem sim, nem não, nem talvez. Foi um estalo entre a excitação da primeira vez e a aparente ausência de lacunas. Baudelaire escreveu que sem lacunas não ha surpresas, mas nem sequer foi o caso. O lugar fez meio-golo, e a entrada em modo de procissão, próximo de uma religiosidade non-sense e de paragens pausadas, precipitou-se num jogo de quente-frio, perto e longe, para descobrir a porta recuada. No interior, dois eixos ortogonais e transições fáceis entre os espaços. Grandes espaços, pequenos espaços, espaços programados e sem espaços escaninhos. Um plano comedido cintado por um perímetro sólido e 4 pilares de 60cm por 50cm que tornaram o interior generoso em possibilidades. Nas janelas a frescura da idade. A cada espaço a sua janela, como um catalogo de atmosferas, um repertório de essência experimental. A Maison Blanche construída para os seus pais em 1912 foi o opus 1 de Corbusier, um laboratório de novidades e ousadias... como uma primeira vez ou como de todas as outras vezes.

Hoje, a dias de distância, e quase de cabeça fria, não me parece que a culpa foi minha por ser um tipo difícil, nem dela por ser uma casa branca. O que me atormenta foi ter descoberto que entre a Maison Blanche e a Petite Maison só passaram 11 anos e a isso não se fica indiferente.


9.6.10

amostras dos 60


Se o desconexo já existisse nos anos 60... publicaria em primeira mão duas odes ao betão com a excitante agravante de se tratarem também de dois exercícios semelhantes: o centro paroquial de S.Michael (1964-67) de Hanns Brutsch e o centro paroquial de St.Johannes (1965-70) de Walter Forderer, ambos nos arredores de Lucerna.
Em situações topográficas muito semelhantes, Brutsch é mais imediato enquanto Forderer é mais labiríntico... Ao longo dos percursos que tacteiam a topografia do terreno, Brutsch trabalha planos que se desdobram em diagonais de uma afirmação ligeira; Forderer dispõe planos e contra-planos numa ortogonalidade mais agressiva no espaço do que na planta. À calmaria do foyer exterior desenhado por Brutsch contrapõe-se a geometria dos vãos cobertos e as sequências de terraços de Forderer. No programa-primo do dispositivo, Brutsch é mais uno, mais directo e quase aborrecido na unificação espacial da nave; Forderer é mais nervoso, com mais tiques, cheio de preciosismos de desenho e uma estafa de recortes coloridos ao bom jeito corbusiano.
Após esta curta resenha presume-se que os leitores do desconexo dispensem as legendas dos limitados fotogramas que se seguem...





17.5.10

peregrinar II - Igreja de S.Pio de Fraz Füeg (1961-66)

Continuam as peregrinações... a lugares de culto em jeito de culto do lugar.

Em 1961 Franz Fueg ganha o concurso para a igreja de S.Pio em Meggen, arredores de Lucerna.
Poderia aqui falar-se do exercício da adição: somar estrutura, revestimento e luz num volume paralelepipédico sobre um embasamento de betão.
Após o primeiro ataque à composição, debitar-se-ia alguma informação técnica referindo os vinte e cinco metros e meio por trinta e sete metros e meio com uma altura de treze metros e meio, e ainda haveria tempo para fazer referência às placas de revestimento com cento e dois centímetros de altura por cento e cinquenta centímetros de largura.
Poder-se-ia depois abordar uma mão cheia de evidências miesianas que o próprio autor não negaria, e mais, sublinharia com ênfase.
Em seguida discutir-se-ia o caracter vertical da estrutura e a demarcada evidência de assumir o fim da verticalidade dos montantes metálicos com o módulo da cobertura.
E outras coisas haveriam a relatar sobre a 'aborrecida' repetição da estrutura que procura a irrelevância para atingir o seu próprio 'desaparecimento'.
Mais tarde não se deixaria por referir a qualidade genérica de 'pavilhão industrial', e a particularidade 'nobre' das folhas de mármore translúcido, entre o banal e o extraordinário (termos que calham sempre bem numa apreciação deste tipo).
Aludir-se-ia também a uma espécie de 'neutralidade amável' (roubando o termo a Alison Smithson), e ao mesmo tempo, à reverberação tonal do envelope no interior.
Lá mais para o fim da conversa entusiasmada acentuar-se-iam os comentários subjectivos, declamados com a importância fulcral que lhes é devida, sobre esta 'igreja que é contemplativa sem existir para ser contemplada', ou então, 'não parecendo o que é, revela-se mais do que parece'.
As coisas exclusivas do espírito discorreriam sobre a atmosfera, fim último de toda a arquitectura, para se referir à dimensão supra-real do espaço criado.
Os motivos puramente sensoriais dominariam apoteoticamente o final da discussão chegando mesmo a falar-se de fundamentos meramente empíricos e justificações indiscritíveis para dizer que a igreja de Fueg é uma obra notável.

Algumas fotografias possíveis em dia chuvoso...










Em jeito de bónus, os dados mais técnicos...



7.5.10

peregrinar

Walter Maria Förderer (1928-2006)


Igreja de S.Nicolau, Hérémence, Suiça (1967-71)

via Chilih

13.4.10

tendências recentes

Bonnard & Woeffray / Escola profissional / Viége
2004-2009
(imagem via site B&W)

EM2N / Keystone office building / Praga
2008-2009 / em construção
(imagem: EM2N)

Sauerbruch Hutton / Edifício comercial St-George / Genebra
2004-2010 / em construção
(imagem: bcs-facades)

6.4.10

a banhos

Banhos públicos, Bellinzona, Suiça, 1968
Aurelio Galfetti, Fluora Ruchat-Roncati, Ivo Trumpy
(foto: Pino Brioschi, 1970)