o desconexo

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21.12.13

um contributo

Estava para começar este texto a tricotar ideias sobre as escolas de arquitectura e os privilégios dessas incubadoras de projecto, apenas e só(!) para vos falar de um contributo discreto mas muitíssimo bem cultivado que cresce na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Munique, TUM para os amigos.
Bruno Krucker (von Ballmoos Krucker Architekten) e Stephen Bates (Sergison Bates Architects) são os titulares do Studio Krucker Bates, uma disciplina de projeto engajada nos temas da cidade e da habitação, cimentada no equilíbrio entre o exercício-de-projeto e a investigação.
O Studio Krucker Bates publica anualmente os Building Register, título genérico de um programa de investigação cujo objecto de estudo são edifícios de habitação de relevância histórica no tema da habitação. Os Building Register não são mais do que fascículos de recenseamento de obras de referencia, e dito assim parece pouco, não fossem feitas com uma dedicação e cuidado que se vê, e que as coloca entre as mais bonitas publicações sobre arquitectura que lembro.
Num papel mate e amável ao toque, o texto descritivo do projeto é factual e aparece arrumado nas primeiras páginas. Dando a César o que é de César, seguem-se conjuntos de desenhos técnicos extremamente educados, que calcam as escalas certas no momento certo, como se fosse possível transformar um recenseamento em narrativa. O todo é ilustrado com fotografias de um realismo seco e eficiente porque num objecto assim o acaso tem pouca margem. As capas, preenchidas de texturas autocad, escondem ainda uma impressão grande formato do objecto investigado.
Sem serem espetaculares ou especulativos, sem serem temáticos ou em formato de revista-tão-na-moda, os Building Register são sérios candidatos à categoria da intemporalidade. São um testemunho do compromisso vitruviano - prática e a teoria - sendo que o ratiocinatio não precisa de ser escrito, mas, neste caso, basta ser bem desenhado. Um contributo obrigatório a ter em cada biblioteca de arquitectura.

Obras publicadas:
Borstei housingLes BleuetsRobin Hood Gardens, The English Terraced House, Fuggerei, Beguinage Kortrijk, Hardwick HallHornbaekhus, Parc Plein Soleil. 





24.5.12

frases descuidadas

Layout para restaurante McDonalds Drive In para Inglaterra e Europa, Gilad Kahana

Dizer "E a faculdade era o que eu chamava um MacJob. Ou seja, era o emprego que me permitia fazer outras coisas à volta, mais criativas, mais libertas da restrição económica que leva a que as pessoas desistam de fazer coisas interessantes" na página 30 do suplemento do Publico do dia 15 de Abril de 2012 na entrevista a Pedro Gadanho.

7.2.11

Densité, proximité, plaisir

Architecture, mouvement, continuité | n.203 - fev.2011 (clicar para aumentar)

Na AMC de Fevereiro, Karine Dana fez o 'review' do que foi o primeiro semestre do atelier de projecto conduzido por Anne Lacaton e Jean-Philippe Vassal na EPFL onde estive como assistente.
O tema proposto e a abordagem ao exercício 'académico' permitiu um primeiro semestre suficientemente diferente do habitual capaz de accionar outro tipo de mecanismos de trabalho. Uma atitude 'zoom out' substituiu o académico 'zoom in', e o projecto construiu-se a partir do interior, através de forças narrativas e cinematográficas. Com um leque de referencias bem alargadas, desde o catálogo do IKEA à Berlin de Wim Wenders, os trabalhos cruzaram universos aparentemente desconexos.
No 'review' da AMC estão alguns excertos, mas o formato da revista e o arranjo gráfico castra a leitura dos projectos ao mostrar apenas 'instantes' isolados das sequências espaciais, ou seja, limitando o todo pela parte. Uma publicação interna com os trabalhos finais está para breve, assim como o arranque do segundo semestre.

31.5.10

escala, matéria e um raciocínio nublado


"In the end, however, architecture only exists when it has become physical, when a social program has become an architectural project, and from that, in turn, a material and spacial object. At issue here is the transfer of a thought, a concept, into build architecture. At this moment, everything depends on whether this transfer occurs plausibly, meaningfully, and completely. That precisely is the issue when architecture becomes physical creation."
Andreas Deplazes no texto de abertura de 'Making Architecture'

O 'Institut fur Geschichte und Theorie der Architektur' (mais conhecido como gta) da ETHZ publicou recentemente o livro 'Making Architecture'.
'Making Architecture' documenta fotograficamente duas centenas de projectos da disciplina dirigida por Andreas Deplazes no primeiro ano do curso de arquitectura da ETHZ e é uma espécie de compêndio de matéria (no sentido material da expressão) que testemunha o primeiro impacto entre o aluno e a (in)disciplina. O livro, editado por Deplazes, inclui também os enunciados dos exercícios proposto aos alunos durante o primeiro ano.
Não será por acaso que o livro se concentra exclusivamente em fotografias de maquetes, de construções e de esculturas.
Não será certamente fortuito que o primeiro exercício do curso, pelo menos entre 1997 e 2007, tenha sempre consistido numa experiência de cariz prático à escala 1:1.
E não será tampouco coincidência que a EPFL, a irmã da ETHZ, possua também uma investigação espacial à escala 1:1 onde é proposto aos alunos do primeiro ano criar um habit, uma espécie de "fato-arquitectónico" (já falado no blog).
Desta forma poder-se-á dizer que o exercício da 'Luva', o exercício da 'Cadeira-em-oito-horas' na ETHZ, e o exercício da 'Prótese corporal' na EPFL partilham pelo menos dois denominadores: escala e matéria.
Para já, e sem outras reais evidências, não será ainda sensato concluir que a expressão contemporânea da arquitectura produzida num determinado contexto nacional está relacionada com a existência, ou não, de uma boa oficina de maquetes numa escola de arquitectura... ainda assim especular nunca fez mal a ninguém.
Porque o des-conexo gosta de processos de aprendizagem e contaminação, faz-se em seguida a transcrição do enunciado do exercício #1 'Luva' do período 1997-2003:

"We have put together for you materials with diverse qualities: on the one hand, rigid materials, and on the other hand, non-rigid materials. From these choices, select two materials. Using only those materials you have chosen, design a glove without any additional means of fastening that can be taken on and off. Think about the hand and its wealth of abilities. Are you interested in the active or passive and? Beginning with the hand's diverse qualitities, examine the principles of its covering and what it expresses. In your presentation, succinctly describe the spacial aspects, the ways materials are joined and the relationship between wearing and covering. Submission: glove; individual work, 1 day." 'Making Architecture, Andreas Deplazes (ed.), Gta Verlag, 2010

18.5.08

Sr. Gropius

O Google assinala hoje na sua homepage o 125º aniversário do nascimento de Walter Gropius.

Sou um admirador do senhor Gropius.

No grupo dos Fantastic Four do século passado (Corbusier, Mies, F. L. Wright, e W.Gropius), W.G. foi dos que mais reflectiu sobre o papel do arquitecto e a importância da educação em arquitectura. Fica na história como o pai da Bauhaus, que para além de ter sido a Escola, foi (e é!) um Conceito de escola sem paralelo. Gropius conseguiu juntar no mesmo lugar grandes "espíritos criativos" e defendeu vectores de liberdade individual e multiplicidade de abordagens artísticas. Fruto desta democrática concepção de escola, a Bauhaus foi um campo de batalhas intelectuais sob um céu de agitação constante (entenda-se: cada um fazia o que queria).
Da sua autoria, o (notável!) projecto do edifício da Bauhaus é a metáfora visual do que foi a instituição: fragmentada e dinâmica, ao contrário da "unificada catedral para as artes" gravada por Feininger para a proclamação de princípios de 1919.

PS. É estranho à luz de tubos de ensaio tão ricos e pluridisciplinares, o ensino da arquitectura seja extremamente académico na Tugolândia.

Para quem quiser ouvir um pouco do senhor Gropius sobre:

A visão democrática da Bauhaus (1m19s)
O verdadeiro funcionalismo com o Homem como ponto de partida (1m31s)
A beleza como coisa indispensável para a vida (1m41s)
(ficheiros audio em RealPlayer)

Deixo aqui o documentário mais difundido sobre a Bauhaus de Dessau - se nos alhearmos dos feios renders 3d que autopsiam estrutura da escola, há planos muito bem tirados do edifício neste documentário.