o desconexo

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12.6.10

outras abordagens oblíquas

Rosa Barba, "The long road" (2010)

Recentemente falou-se de crítica de arquitectura no blog d'As Catedrais a propósito de blogs e a propósito do exercício de Inês Moreira.
O rewind de Pedro Costa originou um reboliço de comentários que terminou com contornos de telenovela deixando esquecido aquilo que se poderia ter discutido: a afirmação sobre a pretensa inexistência de uma crítica (de arquitectura).(1)
De forma sumária Pedro Costa constata que a eventual ausência de crítica poderá dever-se à falta de disponibilidade dos autores para "abrirem" a sua caixa de pandora aos analistas. Depois desenvolve um raciocínio bipartido, por um lado, a falta de disponibilidade dos autores conduz a crítica à inutilidade, por outro, os autores vêem a crítica como irrelevante ou maldizente.
Se o texto apresenta um começo contornado pela dúvida, Pedro Costa termina em tom de encorajamento a favor da resiliência de expressões (neste caso blogs) que persistem e que poderão tornar a crítica consequente.
Porquê o encorajamento se se especula sobre um estado de inutilidade irreparável?
A conclusão parece chocar o com o que anteriormente se tinha dito não fosse um comentário posterior de Pedro Costa onde ele reafirma a condição indesejável da crítica mas assume também que ela pode ter um impacto, ainda que relativo, porque "a sua consequência é reduzida no contexto de quem a produz".

O desconexo retoma as questões para acrescentar dados.
Recentemente Kenneth Frampton reconheceu um certo "apagamento progressivo da crítica" na sociedade em geral, sem se debruçar em particular sobre o campo da arquitectura, o que o levou a afirmar que essa "irrelevância" se tinha tornado fonte de discussão nos meios. Desta situação, e segundo Frampton, surgiram (e surgem) vozes reclamadoras de uma nova atitude "post-crítica"...
Mais não se sabe sobre a "nova atitude" que Frampton identifica porque não se evidenciam exemplos que clarifiquem a etiquetagem. O leitor desarmado fica a mãos com a dificuldade em deslindar o que que quer ele dizer com isto... onde é que ele quer chegar...
Quer-se crer que Frampton se possa estar a referir a novas formas de crítica que pela sua configuração surgem algo nubladas, sem facilitar um reconhecimento claro da sua função.

A este propósito, retomo a cartografia de Inês Moreira como um possível exemplo.
Quer-se dizer que, longe do formato tradicional, a análise montada por Inês Moreira é uma diligência crítica de fundo por simplesmente ousar pegar na produção de uma geração, sem necessariamente fazer uso de cortes, plantas e alçados que excitam os olhos famintos dos leitores. Poucos estariam preparados para um trabalho que, pela sua composição alternativa, é inabitual no contexto das revistas generalistas sobre arquitectura (e talvez por isso desconfortável para os leitores desarmados). No remate, o exercício parece acima de tudo demonstrar que a prática exposta, adjectivada de espacial, se move num espaço trans-disciplinar e (ainda) de pouca visibilidade.

Um nota final para voltar ao princípio, à pretensa inexistência de crítica.
Presume-se que se assim for, escrever sobre a crítica, é duplamente perigoso. Primeiro porque se ela escasseia, é pouca a matéria de trabalho e assim mais subjectivas se apresentam as reflexões. Segundo, se ela não existe, tudo isto é ficção.
No fim, talvez Pedro Costa tenha razão, talvez a crítica seja inútil, mas não me parece que seja em si razão impeditiva de a continuar a fazer, seja pelo exercício que ela permite, seja pelos estímulos que ela produz.


(1) À margem dessa opinião clarifique-se que a análise existe sempre, mesmo que seja sob a forma de 'memória descritiva' do próprio autor, que é em si uma leitura (crítica "viciada") do projecto.
O que poderá eventualmente não existir, ou pouco existir, é a crítica problemática, a crítica comprometida, a crítica que excita pela fina e criteriosa dissecação do objecto de uma maneira que a fotografia nunca consegue mostrar.

12.12.08

o alinhamento dos críticos



Tropecei num artigo do historiador William Curtis (o autor do conhecido tijolo "Modern architecture since 1900") com o título "Les excès du star system: le projet Triangle de Herzog et de Meuron".
Para além de falar do que todos nós já sabemos, desde a cultura do ícone ao vedetismo dos grandes escritórios de arquitectura, aponta dois ou três dardos contra o sistema a propósito da pirâmide que os H&dM querem poisar em Paris.
Curtis alerta para o esvaziamento do projecto: "le projet architectural risque une réduction au niveau de la surface, du signe et de l'effet éphémère" , e considera que o estado actual das grandes encomendas nao é mais do que uma degeneração do efeito bilbao.
Fruto da hiper-inflação do objecto arquitectónico, a velocidade de produção exigida às grandes fábricas de arquitectura colide com a ideia de "tempo de projecto" como tempo de reflexão sobre as problemáticas da cidade, em suma, do contexto. A resposta dada é como um balão de forma exuberante mas cheio de demasiado ar.

Curtis alonga-se.

Tenta desmontar a pirâmide, relata o conflito entre "l'object isolé servant les intérêts privés et le domaine public de la ville" que está em jogo com o projecto dos H&dM e lembra que "Paris n'est ni las Vegas, ni Dubai".

A ler no site do le moniteur.

Frampton já tocou neste assunto na entrevista que postei aqui, agora foi a tacada de Curtis, outros virão porque é inevitável perante a "crise" que não se interrogue a (in)disciplina.
Mas de que forma é que este alinhamento dos críticos vai influenciar o posicionamento dos arquitectos?

25.11.08

architecture is a fragile enterprise



O Modern Architecture - A critical history de 1980 foi re-editado, revisto e ampliado o ano passado. Quem comprar a quarta edição tem um novo capítulo para ler!

Kenneth Frampton deu uma entrevista à Werk Bauen+Wohnen (uma das melhores revistas helvéticas de arquitectura) que vale a pena ler... e ler várias vezes.
Se há uns post atrás eu e os comentadores de serviço do des-conexo nos manifestávamos em prol dos possíveis efeitos benéficos da crise, o Frampton fala disso mesmo... ou melhor, fala da necessidade de uma arquitectura de princípios. Volta a bater na tecla do estrelado, da ideia de marca, e de como este marketing estilístico à escala global é um castrador criativo das grandes fábricas de arquitectura. Fala da ideia de valores para contrapor ao "vale tudo", actualiza o regionalismo crítico e a tectónica, e ainda cita Siza...

"The received idea that there are no principles in architecture today and that anything goes is pernicious.
"The Olympic Stadium in Beijing, designed by Herzog and de Meuron, demonstrates the paradox of the spectacular in architecture. From a technical standpoint this is an exceptionally regressive and unethical structure. The colossal amount of steel used or rather misused, exemplifies what Tomas Maldonado once called the “ideology of waste,” as opposed to waste that unavoidably occurs when something is fabricated.
"I believe there is no significant innovation without tradition and that there is no living tradition without innovation. The fact that these two processes are ultimately inseparable totally repudiates the vain neo-avant-gardist notion that the architecture could or should be an open-ended value free experiment.

"
I think that the task of a critic is to call attention to such work, to the work of so-called unknown architects, and in so doing help to establish them as points of reference in a more general discourse regarding what architecture is and what it could possibly be in the future.

"
In my experience such lesser-known work is often superior to the work of the star architects. Perhaps this is a result of the very circumstances of success, the fact that a star or brand architect often has too much work and the fact that famous architects are often commissioned by clients because of a particular image for which they are famous; the client wants just that image and nothing else, nothing more.

Para ler e reler a entrevista de Petra Ceferin a Kenneth Frampton na íntegra basta carregar aqui.