o desconexo

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9.11.13

topofilia (eventually everything connects)

Duas das páginas mais bonitas do Espèces d'Espaces (1974) de Geoges Perec

A Joelho, a revista de cultura arquitectónica do departamento de Arquitectura da UC, publicou um artigo onde falo de uma experiência de ensino de projeto. Chama-se "Topofilia". O texto não é mais do que uma deambulação à volta dessa experiência e uma vontade de confronto com outras dimensões propícias ao diálogo. No mesmo número da Joelho encontram as outras participações no colóquio "Ensinar pelo Projeto". Para abrir o apetite aqui fica o 'teaser':
Topofilia
"No livro La poétique de l'espace, o filósofo francês Gaston Bachelard fala da problemática da imagem como un produit direct du coeur, de l'âme, de l'être et de l'homme. Bachelard evoca a imagem poética como aquela que se enraíza em nós e desencadeia a reflexão. Partilhando este conceito bachelardiano, o exercício de projecto apresentado aos alunos tratou a imagem como catalisador e motor de aprendizagem.
Intencionalmente sem fornecer um programa, um lugar ou um contexto de intervenção, a proposta desafiou o aluno a produzir um projecto de arquitectura à semelhança de uma construção cinematográfica. Através de processos de adição, corte e colagem, transformação e deformação, o aluno analisou dispositivos espaciais e com eles construiu uma narrativa. Para além de se ter apresentado como uma abordagem alternativa ao exercício de projecto "convencional", este trabalho permitiu abandonar um estabelecido savoir-faire para gerar diferentes formas de aprendizagem e concepção da arquitectura a partir do seu interior. Ilustra-se aqui uma possibilidade de “ensinar pelo projecto” através de processos de inversão que permitem oferecer ao aluno outros mecanismos de investigação espacial."
English abstract
Topophilie - A pedagogical experiment
This paper has its origins in my experience as a teaching assistant for Anne Lacaton and Jean-Philippe Vassal's Design Studio. Lacaton and Vassal were visiting professors at École Polytechnique et Fédérale de Lausanne in 2010-2011.
In his book La Poétique de l’Espace, the French philosopher Gaston Bachelard speaks of the image as un produit direct du coeur, de l’âme et de l’homme, a product of the heart, of love, and of Man. The author evokes the poetic image as one that is rooted in us and triggers our imagination. With this idea of the poetic image in mind, the design studio proposed an exercise to the students using image as catalyst and as a motor for learning.
Intentionally without providing a programme, a site, or a context to intervene, the exercise challenged the student to produce an architectural design like a cinematic construction. Through processes of addition, cutting and pasting, transformation and deformation, students analysed spacial configurations and were invited to build a narrative. Besides being an alternative approach to the “standard” Design Studio exercise, this work allowed the student to put away an established savoir-faire in order to generate different forms of conceiving architecture within its interior space. Through systematic processes of inversion, the exercise provoked new mechanisms of conceiving architectural space, and offered a different possibility of “learning through design”.

31.10.13

radical colomina

Esquema  de conteúdo/tempo da palestra de Beatriz Colomina "Towards a Radical Pedagogy" 29.10.2013
Apercebi-me que se quisesse começar este texto debaixo do guarda-chuva da honestidade só teria de escrever duas notas: a primeira para apresentar o contexto e a segunda para resumir um estado de espírito:

Ontem, Beatriz Colomina, um nome de peso da investigação em arquitectura ocidental, apresentou uma dissertação sobre pedagogias radicais no ensino da disciplina a um auditório meio vazio. Entre os mornos aplausos que selaram o fim da conferência, Colomina parecia feliz e eu desapontado.

Como bon élève costumo seguir a Colomina na www, por isso, em espírito de concerto-ao-vivo esperava ouvir pelo menos alguns b-sides. No palco, quem tanto escreveu sobre o assunto, esqueceu-se que a arquitectura também é um tema pilhado pelo excesso de informação em linha, e a palestra soou por momentos a playback.
"Towards a Radical Pedagogy" foi a proposta da conferência e é o nome do mais 'recente' projeto do Program for Media+Modernity que Colomina dirige em Princeton e que veio apresentar. Em palavras suas: é uma investigação "on going and multiyear".
Colomina, num golpe de marketing e boa fé, começou com uma boa meia hora do seu trabalho passado, em formato best of, desde o Clip/Stamp/Fold e as Little Magazines, Cold war Hot Houses, Learning from Levittown, até ao glamoroso Architecture in Playboy. Tudo isto a uma velocidade de um slide e meio por segundo, pontuado por dezenas de fotografias documentais dos produtos de cada um dos projectos. A par do notável e fatigante dinamismo, Colomina esforçava-se em sublinhar a ideia de colaboração a favor da tríade Investigar-Produzir-Expor. Sem nunca se socorrer de vocábulos do universo da curadoria, fez desfilar muitas fotografias das suas exposições em outros tantos lugares, sempre com personagens de peso da sua entourage, da história recente da arquitectura. Falava do 'como' - como montámos a exposição, o que fizemos na exposição, o que publicámos depois da exposição - atropelando muitas vezes o 'porquê'. Se por esta altura fervilhava no auditório a inquietação dos que queriam ouvir falar de "Radical Pedagogy", Colomina insistia que só é possível comunicar produzindo objectos de comunicação: "learn from communication with communication".
De regresso ao slide de abertura, restringindo a escolha aos anos 60 e 70, Colomina nomeou os casos de estudo, sendo que cada um deles foi cuidadosamente dissecado por investigadores do seu programa. Contavam-se vinte e oito case-studies: dezoito nas Américas (a maioria no sul), nove indicados na Europa e um na Ásia (mas com os dedos londrinos dos Smithsons). Para Colomina, a chave para identificar estas pedagogias radicais passou (e passa) por reconhecer que são um tipo de produção de arquitectura "in their own right", ou seja, foram encaradas como novas formas de expressão, que na altura, surgiram acompanhadas por novos modelos de comunicação e em evidente embate com as instituições onde se geraram. Quando Colomina começou a concretizar a forma como o seu grupo de trabalho começou a 'arrumar' o multiformalismo destas experiências, esgotou-se o tempo de antena e morreu na praia o que devia ter sido o centro da palestra. Comum aos case-studies de Radical Pedagogy esteve a vontade de desafiar um pensamento normativo(1) e - como sublinhou Colomina - o que naquele período era avant-garde, ou se dissolveu no ar, ou foi assimilado pelo main-stream, porque "one cannot be radical forever" (+).


(1) Sem que tenha abordado a questão, suspeito que há uma indício a considerar entre a implementação de programas de PhD e o atenuar das so-called pedagogias radicais. 
Da coincidência ou da sincronização dos tempos, o dArq publica amanha a Joelho #4, uma versão-papel do seminário "Ensinar pelo projeto/Teaching Through Design" onde pude falar das aventuras do atelier de projeto Lacaton&Vassal na EPFL.

22.9.12

ensinar pelo projeto

Caros leitores,
o Departamento de Arquitectura (dARQ) da Universidade de Coimbra está a organizar um colóquio sobre o ensino do projecto de arquitectura. Tudo acontecerá entre o dia vinte e sete e o vinte e nove de setembro em Coimbra. Há temas e sessões, há mesas redondas e uma lista de key-note speakers* para seguir.
Se tudo (me) correr bem eu passarei por lá na sessão da manhã de sexta-feira onde vou falar sobre algumas coisas que me interessam. Até breve.

Para saber mais basta abrir esta janela aqui.

*Alexandre Alves Costa, Juan Domingos Santos, Florian Beigel, Philip Christou, Willemij Wilms Floet, Elizabeth Hatz, David Leatherbarrow, Andrew Clancy.

15.1.12

o joelho

Desenho de Alice Geirinhas para a revista Joelho #02, Abril 2011

'L'espace appelle l'action, et avant l'action l'imagination travaille' G.Bachelard (1957)

Não quero cometer injustiças ao dizer que me detenho mais tempo a olhar para a capa da Joelho #2 do que a ler o seu interior. Mas cada vez que pego na revista do dArq é isso que me acontece.
O segundo número da nova série do que antigamente era conhecido por "Em cima do joelho" dedica-se ao tema das intersecções entre arquitectura (what else?) e antropologia, e é uma versão 'director's cut', revisitada e ampliada dos Colóquios de Outono realizados em 2009 na UC. A capa - o mote para estas palavras - é singularmente ilustrada por um desenho da artista Alice Geirinhas.

São duas figuras em posição sentada e de perfil, que se enfrentam, de braços estendidos ou apoiados numa mesa que não existe. De olhar vazio, é ali que carregam a expressão do rosto, com rugas em torno dos olhos, como se o confronto de que se fala se passasse a um nível subconsciente.
No eixo entre as duas figuras de traço estilizado, grosso e quase primitivo, está uma casa, no seu sentido mais vasto, de traço geral, um pouco rossiano e afinidades que nos poderiam levam a Hejduk. Foi 'humanizada', de olhos fechados, nariz e tudo, semblante carregado pelo peso das janelas traçadas na face, e a testa solenemente enrugada pelas lages aparentes. O desenho completa a casa com uma cave em dois níveis de contornos menos regulares e que me lembra o primeiro capítulo de Bachelard, 'De la cave au grenier' em 'La poétique de l'espace'.
Entre as duas figuras femininas, a casa, de dois braços - um sobre o plano comum e outro levantado como quem pede a palavra - assume-se "a topografia do nosso ser mais íntimo" (palavras de Bachelard) onde mora o inconsciente das duas personagens.
Nas sombras, adivinha-se que a fonte de luz que dá volume ao corpo da esquerda está algures à direita na composição, e na outra figura tudo é invertido, a luz que revela o tronco cilíndrico virá 'debaixo'.

O repetido exercício de observação do trabalho das sombras constrói a particularidade indigesta do desenho mas também a mais estimulante. A personagem da esquerda, embora recebendo a luz do cimo, tem na perna esquerda uma excepção com uma fonte de luz inferior. A outra personagem repete a irregularidade, trabalhada na sua inversão, com uma quarta fonte a iluminar de forma estranha o braço direito em relação ao resto do corpo.

Com uma montagem particular das sombras que concedem volumetria às duas 'disciplinas', o desenho de Alice Geirinhas tem assim qualquer coisa de perturbador no trabalho da sombra que parece desafiar a percepção comum e que confere à composição e ao conteúdo da revista, por acidente ou inspiração, um desequilíbrio que excita o olho e sublinha as intersecções compiladas em cima deste Joelho.

2.11.08

NU exposed

A NU está a passar por um momento "Siddharta".
Há uma exposição no dARQ que visita os arquivos dos primeiros sete anos da pequena revista e serve de mote para a rentrée de uma redacção.
De 3 de Novembro a 4 de Dezembro.
Ainda não tenho imagens mas já há cartaz.



4.9.07

divulgo - CLIA

O dARQ lançou um curso livre de introdução à arquitectura - CLIA.
O curso decorre em dois módulos. O primeiro decorrerá de 10 OUT a 12 DEZ com o tema «A cultura na arquitectura e a arquitectura como cultura». O segundo módulo, de 20 FEV a 28 MAI, aborda «O arquitecto na sociedade contemporânea» e «Como trabalham os arquitectos».
Mais informações se clicar aqui.

3.7.07

OBG a TDS!

OBG PVG
28 Junho 2007


Obrigado a todos!

12.6.07

Lançamento

Recebi na minha caixa de correio, e ficam a saber:

Lançamento de 2 livros pelo editorial do dARQ
Quinta-Feira, 14 de Junho, 15h
na capela do dARQ 40°12'34"N 8°25'23"W

5.6.07

Forster vs Eisenman

A revista NU esteve presente na conferência internacional da Trienal de Arquitectura de Lisboa, e aproveitou a oportunidade para entrevistar Kurt W.Forster e ainda Bjarke Ingels para figurarem nos elencos de dois próximos números.
O mário, ao entrevistar o Kurt W. Forster - para uma Nu que sairá lá para o fim do ano - lembrou-se de provocar o Forster com a frase do Eisenman que leu aqui no des-conexo.

"i don´t believe in teaching architecture"

E depois enviou-me a resposta do Forster:



a resposta rápida...
"That´s why he as been doing it all it´s life."

e depois, lá pelo meio da resposta longa, destaco:
"You may not have what it takes to be an architect."

Esta questão do "teaching architecture" é sempre um punhal de dois gumes! O Forster chama-lhe «paradoxal».
Como ensinar arquitectura? Ensinar arquitectura ou aprender arquitectura?
Educação ou orientação? Ensinar arquitectura implica uma educação estética dentro de determinados parâmetros ou aprender arquitectura é assimilar processos operativos de projecto?
Pode parecer óbvio mas deixo escrito: aprender arquitectura é aprender a pensar.

Paulo Varela Gomes, nas marcantes aulas do 1ºano, dizia algo parecido com isto:
"Qual a diferença entre um aluno de arquitectura, e um aluno de qualquer outra área, no momento em que entram nesta sala?
O aluno de arquitectura, ao entrar, olha para o espaço e pensa imediatamente como o poderia alterar."

10.1.07

03m33s "i don´t believe in teaching architecture"



Wolf D.Prix dos Coop Himmelb(l)au conversa com o Peter Eisenman e aos 3 minutos e 30 e poucos segundos alguém diz "i don´t believe in teaching architecture" ao que o outro responde "me neither".

20.12.06

o 16.02 e o darq reboot

Tropecei num video (que coloquei no fim deste post) produzido pela Bala Perdida, para o evento darq reboot. Gostei particularmente do comentário do duartesilva que publicou o video no you tube.
O comentário diz:

"Vídeo experimental sobre um departamento de arquitectura que já não existe,
acompanhado de música extremamente original."


Há muito tempo atrás aconteceu o darq reboot.
Na origem do darq reboot esteve uma reunião extraordinária convocada por alunos do 1ºano, que, a propósito de uma confusão com uma falta de sala meteram o darq em xeque, e levantaram questões de funcionamento, de docência, de pedagogia, de ensino da arquitectura.
O manifesto que já coloquei aqui foi uma acha para a fogueira.
Nessa manhã de 16 de fevereiro o darq acordou com cópias do manifesto por todos os cantos, e uma ansiedade quase sufocante pairava no ar, a reunião estava marcada para o fim da tarde.

16 de Fevereiro de 2005, (julgo que eram) 17 horas... a sala T-qualquercoisa, agora a actual sala de projectoI, encheu-se de alunos, e muitos professores - nunca o darq tinha visto tantos professores juntos no mesmo dia, à mesma hora e no mesmo espaço. O que lá aconteceu certamente já deve estar morto e enterrado na memória dos presentes, mas a verdade é que foi um momento fulcral para o que se gerou a seguir.

As tropas organizaram e montou-se o darq reboot.
O darq reboot teve como objectivo pensar o ensino da arquitectura e a "Escola de Coimbra", e dos quatro cantos do país vieram represeasntantes de outras "escola" falar sobre isso e fazer um reboot ao sistema.
Ao mesmo tempo o darq reboot queria rever a forma de ensinar a arquitectura no departamento, e aconteceu também a primeira (e única) reunião da assembleia da arquitectura. Esta assembleia tinha como principal objectivo pensar o darq, e era constituída por professores, alunos-representantes de cada ano, e antigos alunos. Não tendo qualquer papel deliberativo, e à margem do conselho pedagógico e do científico, a assembleia analisava e sugeria. Realmente durante algumas horas isso aconteceu, mas como só poucas pessoas tinham realmente uma ideia de estrutura para um departamento de arquitetura, a discussão foi curta e não produziu frutos. A assembleia não voltou a acontecer... Nem o darq reboot...

26.2.06

"GOD BLESS THIS MESS"
26fev06 c.

23.1.06

O fórum do dARQ

http://student.darq.uc.pt/forum/

(Espero que chegue a ser um fórum, porque há tanto a esclarecer, tanto a debater sobre o dARQ.)

17.7.05

Krugger´s lesson no.1

Guardo nos meus anotamentos uma lição do Arq.Mário Krugger acerca da História.
E a ´coisa´ é muito simples: a História para um arquitecto é operativa, e a sua relação com projecto resume-se a 3 acções fundamentais:


ASSIMILAR
V
ACOMODAR
v
TRANSFORMAR
.
.
A par do que ele disse, foi o modo sintético e claro como o disse, fazendo parecer uma verdade absoluta. E não é ?

14.7.05


"There are two types of schools. At the simplest level, there are schools whose purpose is to train people in a service profession. But it is important to step out of this midset. The most challenging schools are those that teach architecture as a cultural discouse. (...) [Categorised] acording to their directions: canonic appoached, early adapters and centres of conjecture."

Jeffrey Kipnis
arquitecto, professor na Columbia University
in http://www.aaschool.ac.uk/symposium/
Gosto de ti.

14.5.05

2.16
RETROMANIFESTO EM JEITO DE ADVERTÊNCIA E TUDO ISTO EM 5 PONTOS PARA UMA NOVA ESCOLA DE ARQUITECTURA

“Eu não pertenço a nenhuma das gerações revolucionárias. Eu pertenço a uma geração construtiva. (…) a guerra é a grande experiência.” 1

Ponto 1. “Penetrar nos recantos do processo da aprendizagem não é um processo de sucessiva e obsessiva limitação de âmbitos e objectivos, mas antes, um processo de progressivo alargamento e aprofundamento de uma ideia (ou de várias ideias). É condição essencial para o avanço da ideia (e da sua materialização) a confrontação, sem rodeios, entre (essa) ideia e a verificação que a perspectiva da sua materialização torna imprescindível; tão essencial como a integração, nesse processo, de visões muito diferenciadas.” 2

Ponto 2. Form follows action 3. Se não se produz acção, não se forma e não se dá forma a uma Escola. Para produzir acção precisamos de mecanismos, e precisamos de dispositivos. O 2.16 foi o trigger, o dispositivo. E “se não reflectirmos sobre o que muda e sobre os desafios que essas mudanças colocam, arriscamo-nos um dia a reunirmo-nos para celebrar o que não está lá – e termos então passado da festa revitalizadora para o culto das relíquias”4. É preciso fazer acontecer.

Ponto 3. É urgente criar referências comuns mobilizadoras no espaço-Escola, digo, no espaço-dARQ. É preciso estabelecer um Projecto sem condicionalismos, sem poderes de apropriação dogmáticos. E a essência desse Projecto, o conceito base, reside no dARQ como pólo de crítica, chamando a si o absoluto direito de produção crítica sistemática e global da Escola, do ensino, do sistema, da sociedade… Criando uma formação autónoma, de postura resistente a pressões conjecturais, de razão crítica.

Ponto 4. Sobre a ruína de bloqueamentos e desmotivações, construir o diálogo entre o edificado saber histórico e as flutuantes exigências da globalizante “lógica” de “mercado”. Ou seja, por em funcionamento a operatividade da história concretizando as três acções de projecto: assimilar, acomodar e transformar. O dARQ como núcleo gerador de produtos, na construção e especulação de saber técnico e científico, avesso ao clima de relativismo. O dARQ, (e os seus mecanismos), sempre presente e crítico nas diversas esferas da sua envolvente, concretizo, cidade, país, mundo. Adoptando uma ideia de Umberto Eco: é necessário desenvolver uma estratégia mediática, com sentido de eficácia, que nos permita intervir nas dinâmicas públicas urbanas.

Ponto 5. “Viva isto, seja lá o que for!”5


1. J.Almada Negreiros in Ultimatum futurista ás gerações do século XX 2.M.Correia Fernandes in ESBAP, Arquitectura Anos 60 e 70 3.mvrdv 4.E.Prado Coelho in O Fio da Modernidade 5.frase de um popular quando viu passar Salgueiro Maia na madrugada de 25 de Abril de 1974

14.2.05

MANIFESTO DARQ
Versão 1.1

“Foi isso que quisemos capturar: o que de incerto se fala nos corredores, ou o que ainda não foi dito ou experimentado.”
(N.Correia, J.Figueira, G.Canto Moniz, editorial ECDJ nº2, 2000)

Se uma escola fala através dos seus professores e alunos (idem) o que tem o darq para dizer? O que tem o darq dito até hoje?

No ano 2000 é publicada a ECDJ nº2, 10 anos de arquitectura no colégio das artes. Este manifesto não ousou esperar mais cinco anos por uma próxima ECDJ sobre 20 anos de arquitectura no colégio das artes, ou até mesmo por mais uma edição dos esquecidos Encontros de Tomar… Uma escola constrói-se em cada dia que passa. E hoje contribuímos para esta escola.

Há 5 anos J.Figueira e A.Olaio falavam de uma escola lenta para uma arquitectura veloz, e hoje temos uma escola estagnada para uma arquitectura que continua veloz. Precisamos de uma escola dinâmica capaz de responder ás solicitações exteriores, formando alunos e formando professores.
Precisamos de alunos interessados e interessantes.
Precisamos de professores empenhados e verdadeiramente comprometidos com o projecto-escola.

Precisamos de uma escola que acompanhe as pedagogias da educação em arquitectura (contemporâneas) que se praticam lá fora, e acreditamos que, ainda com dificuldades económico-financeiras é possível elaborar um projecto pedagógico inovador, ousado e experimentalista ou então um modelo de escola ao nível do que ensina e pratica lá fora. Uma escola que forme profissionais preparados….

Na mesma ECDJ, P.Varela Gomes fala de uma escola, não entre o Porto e Lisboa, mas entre Coimbra e o mundo. Neste momento o dARQ é uma escola inter(entre)nada.
Não é esta escola que queremos, queremos uma escola que dê resposta a todos os desejos de saber e fazer porque queremos ser arquitectos intervenientes no campo da arquitectura, um campo amplo e pluridisciplinar.

É imperativo que exista um diálogo constante e dinâmico entre a comunidade dARQ, seja para falar do projecto a ou b, ou para falar dos problemas da escola. É necessário parar este fenómeno “bola-de-neve”, precisamos de gerar anti-corpos para combater este vírus apático que contamina o dARQ. A dinâmica do espaço-escola é determinada pelos alunos, e pelos professores. Precisamos de discutir ideias para esta escola.

O darq enfrenta constantemente problemas logísticos e pedagógicos, parte de todos nós uma resposta e um dialogo constante, visando resolvê-los.

A biblioteca do dARQ funciona mal, e o espólio de livros é insuficiente. (salva-nos a biblioteca da FAUP, mais 4 horas de viagem e 14 euros para o transporte ferroviário.)
O horário de funcionamento da biblioteca é insuficiente, e com a recente queda do tecto da sala de leitura, (neste momento em reparações), não foi providenciado nenhuma sala de leitura temporária. Esta situação requer resolução, pois existem livros e revistas monográficas que só podem ser consultadas no interior da biblioteca.

No início de cada ano lectivo repete-se a situação de insuficiências físicas e materiais. O dARQ não possui estiradores e cadeiras suficientes nas salas de projecto. As salas de projecto tornam-se pequenas para o número de alunos. E com o decurso do ano agrava-se a situação devido à falta de espaço para maquetagem.
Não existem suportes multimédia em número suficiente. (projectores de slides, telas, triplas, extensões)
O número de computadores disponíveis é insuficiente (15 computadores para 400 alunos), assim como o horário de funcionamento da sala de informática, tendo em conta a fundamental importância do desenho assistido por computador no projecto de arquitectura.

A situação física das instalações do dARQ continua insustentável, nas salas de aulas continuam a existir infiltrações, o reboco do tecto continua a cair, e não é papel de cenário a servir de forro que irá solucionar a situação.
Há insuficiência de salas de aulas que reúnam as condições necessárias para as necessidades das disciplinas que as ocupam em horário lectivo, seja para o número de alunos, seja em material de apoio.

A falta de conforto, de espaços de trabalho, está inter-relacionado com a falta de produtividade. Tem-se verificado um afastamento de alunos e professores do espaço escola, e disso resulta o incumprimento de horários, à falta de diálogo, de participação, a menor tempo de acompanhamento dos alunos. Decorrente do desleixo físico do espaço escola, temos o desleixe físico, mental e pedagógico.

É necessário que a escola não seja lugar de obrigatoriedade de horários mas de prazer no ensino e aprendizagem de arquitectura. E quanto à questão do cumprimento de horários os alunos saem prejudicados nomeadamente com aulas que começam sistematicamente, e sintomaticamente com, pelo menos, 1 hora de atraso.
Assistimos à avançada extinção do espírito de escola, e ao lento estrangulamento da operacionalidade do dARQ.

Dada a pequena dimensão do dARQ, e ainda que com dificuldades de financiamento, acreditamos que é possível lançar um programa experimental de educação em arquitectura. Uma escola, um espaço-crítica, um campo onde fundimos o global com o local, onde nos preparamos para as multiplicidades urbanas, um projecto integrativo de todas as disciplinas, e não cadeiras separadas, muitas vezes sem qualquer relação de conteúdos programáticos entre elas. Um espaço-escola que acolha o debate, a conferência, o projecto…

“Com isto estarão todos de acordo. Mas como se pratica este acordo?” P.V.Gomes (2000)

Imaginamos uma sala de trabalho para cada ano (tal como existe) imaginamos projectos no estirador, maquetas, cartão prensado, cola UHU, ao lado de anotamentos de urbanologia, geografia, antropologia, desenhos da aula de construção e notas da conferencia da semana passada… por esta sala ao longo do dia, ao longo da semana passam os professores das várias cadeiras e leccionam a sua aula, e ali naquele momento, e a todo o momento, o aluno - objecto fundamental num processo constante: o projecto integrativo.

Temos de ser arquitectos globais. Temos de estar prontos para um concurso na Guarda ou em Hong Kong, e para isto o desenho é a linguagem global. E o desenho não é só o lápis, a rotring de tinta da china, ou o auto-cad; hoje o desenho é o archi-cad, o formZ, o rhino, o photoshop, o coreldraw, entre outros, e com eles os renders, as montagens, as foto-colagens numa educação visual pluri-disciplinar. E necessário rever o Plano de Estudos, e neste processo os alunos devem ser consultados, pois são eles as cobaias. …

“O desafio maior dos próximos 10 anos vai ser o de transformar o darq, do depósito de cruzamentos de alguns dos testemunhos da melhor prática de ensino (…), numa plataforma que reinvente as dádivas e reintroduza o futuro” J.Figueira (2000)
É urgente renovar este ensino que se apoia em verdades idiossincráticas de cada professor e da cultura arquitectónica portuguesa, um processo que estagnou à anos.


“Uma escola, enquanto projecto específico, é o que tal instituição exige de nós. Mas a Escola, o espírito da escola, a própria essência da sua vontade de existência é o que o arquitecto deveria introduzir no projecto.” L.Kahn fala-nos do projecto enquanto representação visual, mas projecto como disciplina não altera o contexto da citação.
E o debate sobre o papel da docência? Quais as diferenças ou semelhanças entre o arquitecto e o professor de arquitectura? É um processo também integrante, entre dois momentos que se completam, onde é possível ser um agente activo sem deixar nenhum dos lados para trás. E se for necessário que se opte, sob o risco de se ser prejudicial.


Não nos deixemos intimidar com questões burocráticas, não adiemos a situação para a avaliação dos “20 anos de arquitectura no dARQ”, passemos ao ataque, lutemos por esta escola, pelo que acreditamos e também pelos desafios que o presente nos propõe. E a solução não é impossível.

“Lembrando mais uma vez a utilidade de debates entre os professores desta Escola, quando houver disponibilidade e sentirmos essa necessidade, recordo aqui, megalomanamente, a Academia de Arquitectura de Paris, fundada em 1971 por Colbert, cujos objectivos eram promover, através de reuniões semanais, o estudo, a reflexão e a transmissão de conhecimentos, no sentido de definir regras para o ensino público da arquitectura.” Hestnes Ferreira (2000)

Encontremo-nos em Tomar!

Fevereiro 05
Tiago Borges e Rui Aristides

17.3.04

NOTA#1

O dARQ, Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra, jaz nas instalações do Antigo Hospital de Coimbra (jaz não será bem o termo, mas não encontro agora nenhum melhor.) É possível que bactérias e micro-organismos patogénicos resistentes e multi-resistentes sobrevivam alojados por entre paredes e estiradores e co-habitem com os actuais ocupantes da arquitectura, alunos e professores.