o desconexo

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3.10.10

Lettre à Freddy Buache

Still de "Lettre à Freddy Buache" (1981), J.L. Godard

Em 1980 a cidade de Lausanne encomenda a dois realizadores, Jean-Luc Godard e a Yves Yersin, a realização de um filme de carácter documentário, de fins turísticos, com o objectivo de renovar a imagem da cidade. Com esta encomenda, o conselho comunal pretendia também celebrar os 500 anos da unificação da alta da cidade com o povoado medieval implantado à beira do lago Leman, e inaugurar os novos locais da Cinemathèque suisse.
A curta de Godard foi filmada como uma carta escrita, uma confissão, a Freddy Buache, director da Cinemathèque de 1951 a 1996. O trabalho de Godard ficou longe do feito publicitário, e até é curiosa a forma como o descreve no que filmou e como filmou.
Godard chamou-lhe um 'estudo poético', ou seja, a diferença entre 'un film sur' e um 'un film de', jogando com as palavras para dizer que o seu filme não chega à 'sur-face' porque ficou preso ao fundo das coisas.
Ao som de um solene 'Bolero' de Maurice Ravel, Godard diz a Freddy Buache o que procurou fazer. Sem relatar com uma claridade absoluta a "Lettre à Freddy Buache", sublinham-se dois ou três pequenos gestos.
Godard constrói a ideia de cidade como um movimento 'do verde ao azul', passando pelo cinzento, de Sauvabelin ao Leman, através de planos apertados que captam as cores e as texturas com movimentos contínuos. Quase sem princípio e sem fim, quase intermináveis. E numa cadência lenta de planos, Godard regista os anónimos que se perdem na cidade, os seus habitantes, como se fosse essa a única maneira de aí se viver. Uma construção-ficção (quem sabe) demasiado íntima com a realidade.

Link para Lettre à Freddy Buache (tradução fraquinha...)

Stills de "Lettre à Freddy Buache" (1981), J.L. Godard

31.5.10

escala, matéria e um raciocínio nublado


"In the end, however, architecture only exists when it has become physical, when a social program has become an architectural project, and from that, in turn, a material and spacial object. At issue here is the transfer of a thought, a concept, into build architecture. At this moment, everything depends on whether this transfer occurs plausibly, meaningfully, and completely. That precisely is the issue when architecture becomes physical creation."
Andreas Deplazes no texto de abertura de 'Making Architecture'

O 'Institut fur Geschichte und Theorie der Architektur' (mais conhecido como gta) da ETHZ publicou recentemente o livro 'Making Architecture'.
'Making Architecture' documenta fotograficamente duas centenas de projectos da disciplina dirigida por Andreas Deplazes no primeiro ano do curso de arquitectura da ETHZ e é uma espécie de compêndio de matéria (no sentido material da expressão) que testemunha o primeiro impacto entre o aluno e a (in)disciplina. O livro, editado por Deplazes, inclui também os enunciados dos exercícios proposto aos alunos durante o primeiro ano.
Não será por acaso que o livro se concentra exclusivamente em fotografias de maquetes, de construções e de esculturas.
Não será certamente fortuito que o primeiro exercício do curso, pelo menos entre 1997 e 2007, tenha sempre consistido numa experiência de cariz prático à escala 1:1.
E não será tampouco coincidência que a EPFL, a irmã da ETHZ, possua também uma investigação espacial à escala 1:1 onde é proposto aos alunos do primeiro ano criar um habit, uma espécie de "fato-arquitectónico" (já falado no blog).
Desta forma poder-se-á dizer que o exercício da 'Luva', o exercício da 'Cadeira-em-oito-horas' na ETHZ, e o exercício da 'Prótese corporal' na EPFL partilham pelo menos dois denominadores: escala e matéria.
Para já, e sem outras reais evidências, não será ainda sensato concluir que a expressão contemporânea da arquitectura produzida num determinado contexto nacional está relacionada com a existência, ou não, de uma boa oficina de maquetes numa escola de arquitectura... ainda assim especular nunca fez mal a ninguém.
Porque o des-conexo gosta de processos de aprendizagem e contaminação, faz-se em seguida a transcrição do enunciado do exercício #1 'Luva' do período 1997-2003:

"We have put together for you materials with diverse qualities: on the one hand, rigid materials, and on the other hand, non-rigid materials. From these choices, select two materials. Using only those materials you have chosen, design a glove without any additional means of fastening that can be taken on and off. Think about the hand and its wealth of abilities. Are you interested in the active or passive and? Beginning with the hand's diverse qualitities, examine the principles of its covering and what it expresses. In your presentation, succinctly describe the spacial aspects, the ways materials are joined and the relationship between wearing and covering. Submission: glove; individual work, 1 day." 'Making Architecture, Andreas Deplazes (ed.), Gta Verlag, 2010

18.2.10

skatepark


Notícia do dia
O Rolex Learning Center dos SANAA está pronto. As portas abrem ao público no próximo dia 22...

Premonição para principiantes
Brevemente num quiosque perto de si...

4.12.08

democracia participativa


30 de novembro foi dia de referendos.
Os suiços lá foram às urnas meter as suas cruzinhas sobre numerosos assuntos de entre os quais estava a pergunta sobre o novo museu cantonal de belas artes de Lausanne, que os visitantes mais assíduos desta janela leram aqui.

A questão para os suiços do cantão de Vaud era clara e simples:
Acceptez-vous le décret du 20 mai 2008 accordant un crédit d'investissement de CHF 390'000 dans le cadre de la construction du nouveau Musée cantonal des Beaux-Arts (MCBA) pour les études et la mise au point du projet Ying-Yang en vue de sa mise à l'enquête sur le site de Bellerive, la détermination du montant de son investissement et la détermination de ses coûts d'exploitation ?

100 722 nãos ganharam aos 91 349 sims com uma taxa de participação que chegou aos 51%, resultado que afundou o projecto do novo museu à beira do lago e remeteu todo o processo a um quase-ponto-de-partida. Os opositores ganharam a principal batalha que não era contra a ideia e a necessidade de um novo museu mais contra a sua implantação à beira do lago por príncipios de salvaguarda da paisagem e do património natural.
Não negligencio o impacto que este rochedo sem janelas à moda de museu contemporâneo teria nas margens do lago, mas o contra-senso é que o lugar previsto não é mais do que um terreno "baldio" ao lado de um tapete de alfalto que serve de parque de estacionamento onde anualmente montam as barraquinhas da feira popular.
Findo o referendo o brainstorming sobre o novo museu anima agora os círculos culturais e políticos da cidade.

vverissimo/24h
Lausanne precisa de um novo museu basicamente por duas razões.
Primeiro: porque o Palais de Rumine no estado em que está programado não tem disponibilidade mural para expor a totalidade do acervo que tem enterrado na cave
Segundo: porque a adormecida Lausanne precisa de acção. Digo acção, digo uma arquitectura que sirva os ideais das altas instâncias d'um ícone-à-maneira com um programa que sirva o dito, digo mini-efeito bilbao. (A localização proposta, à beira do lago, deslocada dos principais eixos de movimentos urbanos e longe do centro, aspirava isso mesmo.)

Para já a maioria dos Lausanoises não percebeu isso, e os que perceberam não quiseram o museu à beira do lago e por isso votaram não. É o poder da democracia participativa.

2.11.08

F'Ar e Charles Pictet

f'ar_carte blanche 6_lausanne

Lausanne tem uma dinâmica cultural pouco comum para uma cidade de 130 mil pessoas. A panóplia de eventos que acontecem e que de facto têm públicos, digo salas cheias, é muito grande. Não encontramos uma sala vazia mesmo em concertos de musica erudita aos domingos de manhã na sala Métropole. Curiosamente há apenas uma associação que se presta à divulgação e organização de exposições relacionadas com a arquitectura.

O f'ar, forum d'architectures, tem em cena a sexta edição de Carte Blanche. A iniciativa funciona na base de exposição+conferencia para a qual são convidados 3 arquitectos, a quem é dada uma carta branca como ilustra o nome do evento para mostrarem a sua produção recente.
A presente sexta edição conta com Bakker&Blanc (Lausanne) , Charles Pictet (Genebra) e Ruffieux-Chehab (Fribourg). O espaço de exposição é relativamente pequeno e calhou a cada arquitecto o seu "cantinho".
Estive por lá.

Charles Pictet associou-se a um artista para mostrar 3 obras recentes: maquetes e videos deambulantes. Gosto de videos porque juntam imagem e som e tornam mais presente o espaço e a atmosfera, mas no caso dos videos apresentados por Charles Pictet a situação resulta mal porque os videos são rodados por alguém que se passeia com os olhos colados a 20 cm das paredes. As imagens rodadas descobrem mal o espaço e não complementam as maquetes para entendermos melhor a situação, o ambiente. É pena.
Deixo imagens das três realizações de Charles Pictet em exposição. (Cada imagem tem um link para o projecto em pictet-architectes.ch)

Habitaçao em Chenes-Bougerie (source: www.pictet-architecte.ch)
Habitaçao em Chenes-Bougerie (source: www.pictet-architecte.ch)

Orangerie em Vandoeuvres (source: www.pictet-architecte.ch)

Nos próximos posts teremos Bakker&Blanc...

6.7.08

um novo museu cantonal de belas artes em Lausanne

imagens via BERREL KRAEUTLER (c)

Em Lausanne, e creio que por toda a Suiça, os índices de participação popular na vida da cidade são altos. Digo com isto que é relativamente fácil organizar uma iniciativa popular, não apenas contra ou a favor mas também numa perspectiva "e se...". No centro da cidade as probabilidades de sermos intimidados para assinarmos uma petição ou abaixo assinado para um referendo ou iniciativa popular é muito muito alta. Os suíços gostam e fazem-no por quase por tudo e por quase nada.
A ilustrar esta nota estão os prós, os contra e os "e se" em torno do futuro Museu Cantonal de Belas Artes em Lausanne.
O concurso para o novo Museu foi ganho em 2004-2005 pelo menos conhecido e jovem atelier BERREL KRAEUTLER (ch) contra vários pesos pesados da arquitectura europeia (MVRDV, No.Mad, R&Sie...) e suiça (Richter et Dahl Rocha, Geninasca Dellefortrie...).



imagens via BERREL KRAEUTLER (c)

Nestes últimos meses agitaram-se as águas do Lago Leman: de um lado um grupo de actores culturais a favor da construção do novo museu de belas artes e do outro contam-se as assinaturas para levar a referendo a construção do museu na zona de Bellerive, nas margens do lago. Apesar de misturar argumentos de ordem diversa, o comité referendário pas-au-bord-du-lac não é contra a ideia de um novo museu mas, e acima de tudo, contra a implantação do museu nas margens do lago e relativamente afastado do centro de Lausanne. São contra um museu que vem "estragar" o postcard da margem do lago com as luzes de Evian a cintilar lá do outro lado.

Entre as duas frentes da batalha a imagem do novo museu tem um papel muito importante na captação de militantes principalmente porque o projecto tem uma aparência monolítica. O contra explora o carácter de rochedo para evocar a ideia barreira visual exagerando de forma trapalhona uma foto-montagem com os gabaritos do futuro projecto, e o pró melhora os renders mostrando os rasgos de vidros na opacidade rochosa do conceito.


Link: o dossier de apresentação do novo projecto (.pdf)
Link: atelier Berrel Kraeutler /CH
Link: Pró-nMCBA
Link: Contra-nMCBA

E ainda a visita possível e virtual ao interior do novo Museu de Belas Artes:

19.4.08

Atmosferas...






O des-conexo continua a explorar o Flon...

No centro do quarteirão há um "dispositivo atmosférico" (parece um grande palavrão mas não é).
Este disposivo é a versão contemporânea de uma parreira que transforma o coração do Flon.
O estrutura é uma rede de escamas metálicas apoiada numa dúzia de postes de aço tubular.
E como funciona?
Quando se levanta uma brisa, as centenas de escamas produzem um burburinho que define uma atmosfera urbana muito especial, ou se preferirem, a banda sonora do lugar.
Se tivermos sorte com tempo, a disposição das escamas reflectem os raios assemelhando-se aos reflexos do sol sobre o oceano em dia de praia.
Desta vez produzi um pequeno filme para transmitir o enchimento sonoro do dispositivo atmosférico.
No vídeo aparece o novo edifício da dupla Brauen & Wälchli que aparecerá num dos próximos posts do des-conexo. See you soon...


17.4.08

L'Arbre de Flon-Ville


O quarteirão do Flon, outrora território in da cena artístico-alternativa de Lausanne, é um problema da cidade. É uma zona que faz parte do centro mas que se implantou numa cova topográfica do território, a uma cota inferior à cota de referência do centro histórico.
É no Flon que está o terminal da linha do metro de superfície e é ali que se constrói (o que se espera ser) um interface à altura das ambições da nova linha do metro (M2) a inaugurar em Setembro deste ano.
Quase todas os meses saem notícias sobre o Flon degradado, o Flon sujo, o Flon abandonado, o prejuízo dos (poucos) comerciantes do Flon, e sente-se que a cidade aguarda o milagre da revitalização deste quarteirão.

"L'Abre de Flon-Ville" é um desses gestos que quis trazer um pouco de fresh air aos espaços públicos do Flon e recicla a noção de paisagem artificial com a ideia prazenteira da sombra de uma árvore num dia de calor.
É uma escultura que define um espaço público de paragem num vazio ortogonal de passagem.
A árvore metálica é composta por uma estrutura em aço tubular que atinge 12 metros de altura e revestida por placas de aço inoxidável. As raízes que rasgam o chão são os bancos que se estendem (episodicamente) pelos 22 mil metros quadrados do quarteirão. Durante a noite os neons de cor rosa, embutidos debaixo de cada raíz, dão um ar futuro-kitsch ao conjunto.

As fotos aqui estão fraquinhas mas ilustram "a coisa"...
(Recomendo uma espreitadela às cenográficas fotos de Milo Keller que estão no site dos Oloom.)


L'Arbre de Flon-Ville, Lausanne, 2007
Oloom (CH) e Samuel Wilkinson (GB)

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Finalmente internet chez-moi! Veremos se o des-conexo anima um pouco mais!